"Há 86 anos, Fernando Pessoa escrevia a Miguel Torga
Lisboa, 6 de Junho de 1930.
Meu prezado Camarada:
Muito agradeço o exemplar do seu livro "Rampa". Recebi-o já há alguns
dias. Só hoje posso escrever para lho agradecer. Li-o, porém, logo que o
recebi.
Li-o e gostei dele. A sua sensibilidade é de tipo igual à
do José Régio – é confundida, em si mesma, com a inteligência. O que em
si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso dessa sensibilidade. Há
que separar mais os dois elementos, que naturalmente a compõem; ou que
confundi-los ainda mais. Uma análise instintiva que coloque a
sensibilidade desintelectualizada perante a inteligência
dessensibilizada, em contraste, diálogo e reparo; ou uma síntese em que
desapareçam os traços de haver dois.
Não creio impossível que
qualquer, ou ambos, destes processos sejam por si atingidos num futuro
próximo da sua consciência de si mesmo.
Intelectualmente – e
portanto artisticamente – falando (a arte não é mais que uma
manifestação distraída da inteligência), a sensibilidade é o inimigo.
Não o inimigo que se nos opõe, como na guerra, mas o inimigo a quem nos
opomos, como no amor. Há que vencer, pois, não por esmagamento, mas por
sedução ou domínio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da
inteligência; ou fazer a inteligência montar casa externa à
sensibilidade. Imagens? Como o universo... Mas, em suma, gostei do seu
livro, e por ele o felicito.
Com a melhor camaradagem e apreço
Fernando Pessoa"