Arca dos Sonhos e dos Saberes

Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas de Anadia

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março 07, 2016

MÁRIO CESARINY

Foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.

MÁRIO CESARINY, in A CIDADE QUEIMADA (Assírio & Alvim,1965, 2000)

O NAVIO DE ESPELHOS

O navio de espelhos
não navega, cavalga


Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Maria Ivone Saraiva à(s) 18:52
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