O
funeral de Fernando Pessoa realizou-se a 2 de Dezembro de 1935, há 80
anos. O caixão do escritor saiu da capela do cemitério dos Prazeres, em
Lisboa, às 11h00, sendo depositado no jazigo da sua avó. Luis de
Montalvor, em nome dos de Orpheu, proferiu um curto discurso. Vários
amigos e companheiros literários mais próximos de Pessoa marcaram
presença. Entre eles, o já citado Luís de Montalvor, Alfredo Guisado,
Almada Negreiros, António Ferro, Raul Leal, João Gaspar Simões, Luis
Pedro Moitinho de Almeida, António Botto, Carlos Queiroz e o cunhado de
Pessoa, Francisco Caetano Dias. A irmã de Fernando Pessoa não esteve
presente, devido à fratura de uma perna. Muitos outros apenas souberam
da morte de Fernando Pessoa após o seu funeral. A natureza reclusa do
escritor fazia com que a sua ausência de alguns dias não fosse
estranhada. E vários amigos só souberam do óbito pelos jornais, a partir
de dia 3 de Dezembro.
NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
(24-8-1930)
FERNANDO PESSOA, in NOVAS POESIAS INÉDITAS- Fernando Pessoa. [Lisboa, Ática, 1973 (4ª ed. 1993)].
FERNANDO PESSOA, in NOVAS POESIAS INÉDITAS- Fernando Pessoa. [Lisboa, Ática, 1973 (4ª ed. 1993)].


































