dezembro 19, 2015

DAVID MOURÃO-FERREIRA



, in CANCIONEIRO DE NATAL (1971)

NATAL À BEIRA RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurreta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!
(1960)
*
O poema abre o livro Cancioneiro de Natal que o poeta publicou em 1971 com 10 poemas onde a sua vivência do Natal se reflecte. Cancioneiro de Natal mereceu ao autor o Prémio Nacional de Poesia, 1971